O noticiário recente, com diversas manchetes que desafiam a compreensão de todos aqueles dotados de senso de justiça, reforçou a importância de uma causa que há décadas desafia a sociedade brasileira e que sempre motivou a minha atuação política: o combate à violência contra a mulher. Quase 50 anos depois de os movimentos feministas bradarem em numerosas manifestações a emblemática frase “Quem ama não mata” — grito de socorro que teve como objetivo chamar a atenção da opinião pública para a opressão a que éramos submetidas — a cultura machista e a misoginia, que ceifaram tantas vidas no passado, continuam aterrorizando o cotidiano de milhões de companheiras.
Em uma manhã de sábado, no Parque Novo Mundo, na zona Norte de São Paulo, um homem atropelou a ex-namorada. Após atingir a vítima com um Golf Preto em uma avenida que dá acesso à marginal Tietê, ele continuou dirigindo, mesmo com o corpo dela preso ao veículo. Câmeras de segurança registraram a moça ser arrastada por cerca de um quilômetro. Encaminhada ao hospital, a mulher teve as duas pernas amputadas, devido aos ferimentos profundos. No dia seguinte ao crime, o agressor foi preso em um hotel na zona Leste.
Outro episódio de notável crueldade reportado pela mídia nos últimos dias ocorreu na mesma região da capital paulista. Utilizando duas armas, um homem atirou seis vezes, à queima-roupa, em sua ex-companheira, enquanto ela trabalhava em uma pastelaria. Alvejada nas costas e nas pernas, a vítima foi levada ao Hospital das Clínicas e, apesar de gravemente ferida, sobreviveu. A Justiça de São Paulo decretou a prisão temporária do agressor, que continua foragido.
Esses são apenas dois exemplos entre tantos que compõem um cenário tão revoltante quanto desolador em nosso país, que atingiu, em 2024, o maior número de feminicídios desde o início da tipificação do crime, em 2015. A informação consta no Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em julho último pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Ao todo, 1.492 mulheres foram assassinadas, o que representa uma média de quatro mortes por dia. Entre 2023 e 2024, a taxa de feminicídios aumentou em 0,7%.
A violência praticada contra as mulheres brasileiras também expõe feridas causadas pela escravidão e o racismo, outras duas tragédias nacionais. Após 137 anos da abolição da escravatura, que não extinguiu a desigualdade de acesso a oportunidades e o abismo social existente entre negros e brancos, as estatísticas falam por si. Segundo o anuário, as vítimas são, principalmente, negras (63,6%).
Lamentavelmente, é necessário reconhecer que, embora não seja uma novidade, o desrespeito diário às vidas das mulheres brasileiras, alvos fáceis de outros tipos de violência (psicológica, sexual e patrimonial), recrudesceu nos últimos anos. Os discursos de ódio, proferidos inclusive por autoridades, e a permissividade das redes sociais serviram de combustível para que machistas e agressores se sentissem autorizados a manifestar em público, e até com certo orgulho, todos os tipos de preconceitos e ataques misóginos que anteriormente teriam certo pudor em expressar. A barbárie e a falta de empatia foram institucionalizadas.
Por conta disso, torna-se ainda mais urgente a ampliação da participação feminina na política nacional, uma das principais bandeiras do PSD Mulher. O levantamento Mulheres na Política 2025, divulgado pela União Interparlamentar (UIP) e a ONU Mulheres, organização da ONU dedicada à igualdade de gênero e ao empoderamento feminino, registra que o Brasil ocupa a 133ª colocação no ranking mundial de representação parlamentar feminina. Apenas 18,1% da Câmara dos Deputados é composta por mulheres, ou seja, 93 parlamentares. No Senado, elas são 19,8%, somando apenas 16 mulheres. Esses números colocam nosso país entre os piores desempenhos globais.
Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), apenas 727 municípios são governados por prefeitas, número que corresponde a cerca de 13% do total de 5.569 cidades brasileiras. Entre os 102 candidatos que disputaram o segundo turno das eleições em 2024, somente 15 eram mulheres.
É necessário reconhecer nossas conquistas, como a criação de cotas para candidaturas de mulheres. Outra medida relevante foi a obrigatoriedade de os partidos destinarem às campanhas de mulheres recursos do financiamento público proporcionais ao número de candidatas. Entretanto, esses avanços ainda são tímidos, sobretudo se levarmos em conta que vivemos num país onde 53% do eleitorado é feminino.
O PSD sempre lutou para mudar esse quadro. O partido tem cerca de 200 prefeitas e vice-prefeitas e 1.100 mulheres parlamentares, entre vereadoras, deputadas estaduais, deputadas federais e senadoras. Das 16 representantes da bancada feminina no Senado, quatro são filiadas à sigla.
Mas queremos ir muito além. O Brasil merece e necessita que as mulheres participem das direções partidárias e das decisões que influenciam diretamente seus destinos. Afinal, como afirma a britânica Mary Beard, uma das mais renomadas historiadoras contemporâneas, “não se pode, com facilidade, inserir as mulheres numa estrutura que já está codificada como masculina; é preciso mudar a estrutura”.